A economia que queremos

Texto disparador produzido pelo Movimento das Comunidades Populares (MCP) para debate entre os grupos e xs participantes no primeiro encontro anual em novembro de 2013.

 

QUATRO ORIENTAÇÕES PARA A ECONOMIA QUE QUEREMOS

A organização econômica sempre foi uma necessidade política dos Movimentos Populares.

É através da economia que os politiqueiros procuram controlar as Comunidades. Portanto, é preciso organizar economicamente a Comunidade, para ter independência política.

Sociedade é onde todos são sócios. Considerando que nós vivemos em um sistema capitalista e, por isso, individualista, excludente por natureza, gerador de pobres, o nosso projeto de economia coletiva deve ser para construir uma alternativa comunitária e substituir este sistema.

Se o objetivo do projeto econômico é construir alternativas comunitárias para substituir o sistema, o projeto tem que ser diferente do que comumente se faz.

Orientações a partir da prática

Pela nossa experiência, os grupos que vão começar uma produção ou comercialização coletiva devem começar com recursos próprios.

Isso pode parecer absurdo. Como os pobres vão ter recursos para investir?

No nosso entendimento, os recursos devem vir do consumismo dos pobres. Se os ricos são consumistas porque gastam além das necessidades, os pobres, para imitar os ricos ou a classe média, retiram das necessidades para comprar o supérfluo como carro, moto, aparelhos eletrônicos, bebida alcoólica, roupas de marca, produtos de beleza, etc. Esses bens geralmente não são comprados por necessidade, mas por influência da propaganda. Quando há necessidade, deixam de ser supérfluos, mas, mesmo assim, na maioria dos casos, poderiam ser adquiridos no coletivo. Os pobres precisam aprender que, além de consumir, é preciso investir.

1ª Orientação: Economizar o dinheiro do consumismo individualista para investir no projeto coletivo.

2ª Orientação: O projeto deve começar pequeno.

Quando o grupo é pequeno é mais fácil administrar. Não há necessidade de fazer curso de administração, contabilidade, etc. Os pequenos negócios vão revelando as pessoas que têm dom para cada tarefa. As trocas de experiências entre os grupos nos Encontros e as leituras de materiais de avaliação das experiências vão desenvolvendo a capacidade administrativa dos participantes. Com o tempo, os grupos devem ir crescendo em renda e número de pessoas. Aí sim, podem adquirir recursos externos.

Na nossa experiência temos os Grupos de Investimento Coletivo (GICs) nas Comunidades. São Bancos Comunitários que fazem empréstimos para os grupos que já demonstraram, na prática, que têm capacidade de gerir um projeto de Economia Coletiva.

3ª Orientação: O grupo deve participar de outras Colunas da Comunidade.

Participar de outras Colunas ajuda a resolver outras necessidades das pessoas do grupo como saúde e moradia, por exemplo. Por outro lado, participar de Colunas como Religião, Arte, Lazer e Escola ajuda a desenvolver a consciência comunitária dos membros dos grupos. Se ficar só no Grupo de Produção, Vendas ou Serviços vira cooperativismo, onde o interesse é só econômico-financeiro.

4ª Orientação: Praticar a Política Participativa

Tudo deve ser resolvido, decidido ou aprovado em reunião. As decisões devem ser anotadas para serem avaliadas depois. Esta orientação é importante, porque nos grupos de economia coletiva sempre aparecem dois tipos de consciência. Um é a consciência de patrão, quando a pessoa quer mandar nos outros e ganhar mais do que todos. Não gosta de decisões coletivas. Acha que, sem sua presença, o grupo acaba. O outro tipo é a consciência de empregado. Este companheiro age como se estivesse trabalhando em uma empresa privada. Não vê vantagem em participar de reuniões, acha que é perda de tempo. Vive procurando emprego para ganhar mais. Não se preocupa com os problemas do grupo, com a produção, com a qualidade, com o prazo de entrega, com as vendas. Não se preocupa em se relacionar bem com os clientes e fornecedores. Não consegue deixar o consumismo, vive se endividando.

Esses dois tipos de consciência – patrão e empregado – facilmente destroem os Grupos Coletivos e, junto com eles, o projeto econômico da Comunidade.

Para o projeto dar certo é preciso ter no grupo uma terceira força ideológica: a consciência coletiva ou comunitária, que valorize a opinião de todos, entenda que a renda é importante e necessária, mas saiba que a garantia do bem-estar das pessoas depende muito mais da vida comunitária do que da renda do grupo. Saiba que, quem não vive em Comunidade, quanto mais ganha, mais gasta e acaba estressado. Quem vive em Comunidade ganha menos, mas vive melhor, só gasta o que é necessário e é mais feliz.

É com estas orientações que, desde 2001, viemos criando Grupos Coletivos de Produção, Vendas e Serviços nas Comunidades. São grupos de Costura, padaria, produtos de limpeza, bolsas de viagem, lojinhas, lanchonetes, comida caseira, mercearias, compras coletivas de frutas, verduras e cereais, hortas, roças, criatórios de animais, sorteios de cestas coletivas, consórcio de dinheiro (ponto de caixa), construção civil, lavanderia e outros.

 ONDE HÁ COOPERAÇÃO, NÃO EXISTE EXPLORAÇÃO!